Sobre o turismo e a Convid 19, por Gérson Marques
Segundo os infectologistas só haverá um sentimento de segurança na sociedade quando pelo menos setenta por cento ou mais da população já tiver sido infectada. Fora isso, só se surgir uma vacina, fora de questão em menos de dois anos, ou alguma excepcionalidade fora do radar no momento.
Porque isso? Porque mesmo depois do grande pico de infectados que teremos em abril e maio e os correspondentes números de internações e óbitos, a C19, continuará infectando muitos. Neste período se espera que sob certos controles, com menos pressão no sistema de saúde, até atingir um patamar em torno de setenta por cento da população, imunizados por já terem criado anticorpos pela própria contaminação.
Existe a previsão de outras quarentenas, ou o que se chama de segunda onda. Tudo vai depender da capacidade de resposta do sistema de saúde e das práticas de controles, que sabemos são muito precárias. Poderão ser quarentenas regionalizadas, por exemplo.
Portanto, além de um problema biológico, temos também um problema matemático. Mesmo em economias muito avançadas como EUA e Comunidade Européia, existem problemas de incapacidade do sistema de saúde. Por isso praticamente todos os países terem adotado a estratégia do isolamento social, para provocar um achatamento da curva de contaminação, considerado pela grande maioria dos especialistas a atitude mais correta. Se esta é a forma mais segura, é também a forma mais demorada, exatamente porque vai levar mais tempo para a grande maioria da população se infectar e com isso criar imunidade necessária.
É exatamente aí que está o X da questão: retomar a confiança da população no sentido da segurança em não se contaminar, e se ocorrer, ter a segurança do sistema de saúde habilitado a responder. Vejam que não é uma equação fácil.
Isso, portanto, gera um grande problema para a cadeia produtiva do turismo. Se a confiança da população será o fator decisivo para retomar certos hábitos de consumo, infelizmente a cadeia de turismo será a última a sair da crise, apesar de ter sido a primeira há entrar.
Vou dar alguns exemplos: Cruzeiros de navios, fora de questão por dois anos no mínimo, é provável que alguns países cheguem a proibir por algum tempo. Aviação, não retomará a normalidade em menos de um ano, além do refluxo de passageiros todas as empresas vão sair muito feridas, algumas vão sumir, diminuirá muito a frota e números de funcionários. A aviação funciona em escala e rotatividade, a margem de lucro por passagem vendida é muito baixa, menos passageiros menos voos, menos turistas, menos pacotes, etc.
A aviação talvez seja, depois dos bancos, o setor que mais vai precisar de subvenção econômica nós próximos anos para não quebrar todo. Haverá muita concentração com empresas maiores comprando as menores, com consequente diminuição na oferta.
Enquanto as pessoas não tiverem segurança em viajar respirando o mesmo ar dentro de um avião, comer nos mesmos talheres em um restaurante, andar no mesmo ônibus ou vans, ficar em um apartamento de hotel que foi usado por outras pessoas horas antes... o sistema turístico não retomará ao tamanho que estava e isso vai levar tempo.
Confiança em não se contaminar, está será a chave da questão nós próximos meses e talvez anos. Sem isso, só vacina, para abreviar este tempo. Enquanto isso não acontecer, não haverá normalidade no setor. Essa é a questão essencial. Só haverá turismo se houver confiança e isso vai demorar muito.
Por suas características de grande empregador e distribuidor de rendas, em uma cadeia que envolve vinte e dois setores, o turismo terá grandes perdas, com números enormes de falência e desorganização da cadeia, caracterizada por grande informalidade e também muita dependência de pequenas empresas prestadoras de serviços.
Para nossa região, fortemente dependente do turismo, será um grade desastre econômico e social. Por isso é fundamental que as lideranças do setor trabalharem imediatamente na busca de sensibilizar governos para subsidiar de forma emergencial este setor, com políticas de créditos e injeções de recursos próprias e específicas.
A questão não é só abrir novamente as portas. O principal será ter a confiança do consumidor que, em última análise, depende pouco do próprio setor. Esta confiança ficará profundamente abalada depois da etapa de pico de contaminação com as consequências já conhecidas em outros países. É bom lembrar que os EUA, trabalham com uma perspectiva oficial de algo entre cem e duzentos mil mortos. Não é possível projetar como será no Brasil, mas pode ser até pior.
Não digo isso com naturalidade. É óbvio que torço, medito, faço orações e não desejo que aconteça o pior, principalmente com esse povo tão sofrido. Mas não é factível nem razoável imaginar que não venhamos passar por isso. Não é científico imaginar que Deus é brasileiro e vai ser diferente com o Brasil, pelos nossos lindos olhos. Sou dos que preferem errar por excesso de precauções do que chorar por não tê-las tomado.
O que pode ser feito neste momento é o que está sendo feito, muito mal, por sinal: enquanto nas outras nações o sentimento é de guerra contra um inimigo comum, com ações planejadas e coordenadas por um governo central, com autoridade e apoio da população, temos aqui um governo confuso com orientações desencontradas. As medidas tomadas vêm sendo contestadas pelo próprio presidente do governo. Temos uma perigosa ausência de comando. Se houver algum resultado melhor que um mega desastre social, isso se deve a governos locais, estaduais, comunidade científica e sociedade organizada.
A lógica já é conhecida: é quanto menos isolamento mais tempo de quarentena, infelizmente.
Neste sentido, alerto aos colegas empresários de turismo: muito cuidado com os próximos passos, muita precaução nos gastos e revisão imediata dos planos e metas de 2020/21.
O autor Gérson Marques é diretor da Fazenda Yrerê, cenário de turismo rural em Ilhéus